Eu estava acabado. A cada vez eu me olhava no espelho, via
alguém desconhecido. As marcas roxas eram testemunhas das noites de sono
perdido. O cabelo desgrenhado estava sujo. O coração doído era vítima dela. Maldita
hora em que eu olhei para ela. Maldita hora em que eu a pedi em namoro. Maldita
hora em que aquela fofoca se espalhou. Maldita vida inútil. E pensar que um dia
eu ri sem motivo. E pensar que um dia eu fui feliz.
Eu assistia desenho deitado no sofá sujo e coberto por
migalhas de biscoito. Era um desenho escroto que nem a minha vida. Se não
bastasse, a campainha tocou bem no ápice da luta entre o herói e o vilão. Eu perguntei
quem era. Uma voz doce e apreensiva soou por trás da porta. Era ela. A moça que
arruinou a minha vida. Num ato inexplicável, eu corri para abrir a porta. Eu queria
vê-la uma última vez. Ela me olhou nos olhos.
- Você está horrível – Marina disse.
- Foi por sua causa. Veio partir outros órgãos meus?
- Não. Vim saber se é verdade que você vai embora.
- É verdade sim. Vou amanhã de manhã.
- Não vai. Por favor.
- Por que eu não iria? A única coisa que me prendia aqui era
você. Aí a senhorita me abandonou.
- Por favor, não vai. Eu descobri que aquilo era mentira.
- Descobriu tarde. Vou amanhã às oito. Adeus.
- Não!
- Sim! Você acabou com o resto de mim e quer que eu fique? O
que vai fazer? Esfregar a sua felicidade na minha cara? Marina, vá embora.
- Nunca! Você sabe o quanto eu sofri ao pensar no que você
estria passando?
- Então, por que não veio antes? Olha, vá para casa. Acabou.
Eu te amo ainda, mas não dá certo. Eu vou seguir o meu caminho. Ele pode ter
brasas, maremotos, tubarões, tudo o que for possível, mas eu tenho que
segui-lo, faz o mesmo.
- Fernando, não – ela disse e lágrimas lavaram a face dela –
Poxa, eu te amo. Fica. É sério – eu baixei a cabeça e ela segurou erguendo-a –
olha para mim. Deixa disso.
- Não posso. Adeus Marina – eu disse e fechei a porta. As lágrimas
caíram de novo e eu desabei. Uma pressão queria espremer meu coração até que eu
criasse coragem para ir atrás dela. A missão falhou. Encolhi meu corpo no chão
frio e comecei a lembrar dos velhos momentos. Eu a perdi. Eu sou um merda. Eu ia
embora no trem das oito. Eu queria morrer.
* * *
No dia seguinte, eu acordei cedo e coloquei uma música
triste o bastante para me fazer chorar. Peguei minha mochila e fui para a
estação. Na minha mão estava um velho livro de poesia. No coração estava uma
dor incontrolável. Na cabeça estavam os pensamentos mais confusos do ser
humano.
Peguei um táxi e fui para a estação férrea. O trajeto era
curto e entediante. Quando cheguei, a estação estava cheia, com cheiro de peido
e de cigarro. Eram sete e quarenta e cinco. Esperei um bom tempo até que alguém
anunciou a saída do trem para o Rio de Janeiro. Joguei a mochila nas costas e
fui.
Em meio à multidão, uma voz esganiçada chamou por mim. Virei
e vi a Marina correndo que nem louca com os cachos ao vento lento. Eu esperei
até que ela gritou para que eu não fosse. Abraçou-me e disse aquelas palavras.
- Que faz aqui? – eu perguntei.
- Vim impedir uma besteira. Eu estou lhe pedindo pela última
vez. Fica. Não te mereço, mas eu te amo poxa. Se você ficar eu faço aquele
bolo, pipoca e o mais importante: eu te faço feliz. Sou a pior pessoa, mas
fica. Por favor – ela disse e mais uma vez chorou.
- Não posso.
- Sim, você pode.
- Você encontrar alguém. Vai me esquecer. Vai esquecer tudo –
eu disse e então ela me beijou. Soltei o livro e a segurei na cintura. Soltamo-nos
e ela suplicou pela última vez – Eu fico, mas só com uma condição.
- Qual?
- Seja a Sra. Ventura.
Os dentes brancos se mostraram e ela disse um simples e
glorioso “sim”. Segurei a cintura dela e comecei a girá-la. O trem se foi e eu
a toquei com os lábios.
- Só falta uma coisa – ela disse assim que nos soltamos.
- O quê?
- Aquelas palavras. Todo final de história romântica tem
aquelas palavras.
- “The End”?
- Não seu bobo.
Pensei mais um pouco e finalmente disse um “Eu te amo”. Não existem
palavras mais bonitas que essas. Definitivamente não.





Rafaela. 14 anos. Leonina. Pavio curto. Fã do AC/DC e dos Beatles. Escreve quando está com inspiração. Adora chocolate e sorvete. Tem medo de prédios muito altos, mas sem quis saber a sensação de se jogar de um.