"Ela tinha a mesma rotina chata de qualquer pessoa. Isso até
o garoto se mudar para a casa em frente. Ah! Sempre a casa em frente. Por que
não a que ficava a dois quarteirões de distância? Pra que ela iria querer mais
alguém para atazaná-la? Por que o violino da música que vivia sendo transmitida
pelo fone ficou preso no coração? Deus! Por quê?
Aquele dia chato passou rápido demais em comparação aos
outros. As professoras estavam menos escrotas, a comida parecia menos nojenta e
as pessoas não eram o alvo daquela típica frieza diária.
Na volta para casa os mendigos pareciam amigáveis e os
pássaros não pareciam ameaçadores. Ela pensou se o Sol fosse explodir e o mundo
acabar. Não. Era só a velha magia do novo vizinho.
E, durante a tarde, o vizinho veio lhe trazer a torta que
parecia envenenada. Deu pra ver os olhos riscados dele. Uma blusa manchada de
água sanitária e a bermuda que parecia ter sido comprada num brechó faziam dele
a criatura mais incomum possível. Mesmo assim ele estava apresentável. A torta
era de abacaxi e a educação impecável.
O aparelho de som tocava uma música velha o bastante para
fazê-la parecer antiquada ou desatualizada. Errado. Ele não abominou a música e
batucou o ritmo usando os pés. Os cadernos espalhados pelo sofá agora estavam em
cima da mesa, dividindo lugar com os pratos do almoço comprado pronto. Durante
vários minutos, o silêncio foi o convidado de honra. Os minutos passaram e ele
perguntou sobre ela. Viu o velho livro e lhe contou o final. Ela ficou meio
brava. Por pouco tempo até.
Durante mais ou menos uma hora, eles conversaram sobre o que
ela nunca pensou contar. É, parece que ela tinha um amigo. Ou vizinho do ombro
do desabafo. Enfim, o TIC TAC do relógio ficou mais alto e ele anunciou o fim
da entediante, mas confortante conversa.
Ela foi educada e o levou até a porta. Ele acenou antes de
atravessar a rua esburacada. Ela sorriu em resposta para não mostrar o bom e
velho dedo do meio. Sim, o dedo do meio. Ele estava querendo algo. Dinheiro,
doces, livros, vinis raros... Ele estava querendo algo. Essa era a única
certeza dela.
Naquele outro dia, ela levantou ao toque infernal do
despertador possuído, vestiu um casaco que cobrisse a bunda e foi para a
escola. Parecia monótono até aí. Depois daí, o velho vizinho sem nome apareceu
para acompanhá-la. Aqueles energúmenos pensariam besteira e o sarcófago que a
protegia do mundo estaria ruindo. O que ela poderia fazer? Ele realmente queria
dinheiro? Se a reposta fosse sim, ele estaria ferrado. Ela não tinha o que
chamar de dinheiro. O motivo? Livros. Drogas do bem. Vício que não a largava.
Tentação que veio do demônio. Enfim, ela deveria aceitar. A garota durona
estava ao lado de alguém do sexo oposto. Isso era raro assim como a explosão do
Sol num dia de neve.
E o grito soou pelo quarto bem antes do despertador. O sonho
a tinha assustado mais do que o palhaço que tentou roubá-la um mês atrás. Ela
queria saber o que acontecia depois. Tentou. A missão falhou lindamente. O que
restou foi levantar. Café solúvel, biscoito (ou será bolacha?) e um jornal
velho. O aparelho de som agora transmitia a música de uma cantora que tinha a
voz rouca, mas única. Às vezes era disso que ela precisava. De nada. Só
sossego. Ou de um ótimo dedo do meio. Às vezes os dois faziam uma bela dupla."
Rafaela. 14 anos. Leonina. Pavio curto. Fã do AC/DC e dos Beatles. Escreve quando está com inspiração. Adora chocolate e sorvete. Tem medo de prédios muito altos, mas sem quis saber a sensação de se jogar de um.
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