"Eu estava na biblioteca. Um alvoroço começou e até os mais
desinteressados em livros vieram para dentro daquele antro de conhecimento. Uma
melodia que eu conhecia começou a ser tocada por um garoto de feições
semelhantes às de um travesti que segurava um violão meio velho. Uns outros
garotos batiam palmas e um certo homossexual esfomeado saiu cantando meio
afinado. Eu olhei em volta para procurar a garota que estava vermelha diante da
situação. Como não era de se esperar, a garota que tinha que corar era eu. Eu
peguei uma tira de papel qualquer e coloquei para marcar a página do livro
surrado. Eu tentei sair daquele inferno pra ter a certeza de que aquilo era
somente uma brincadeira de gente sem ter o que fazer. É óbvio que não me
deixaram sair. Duas criaturas enormes me seguraram enquanto aquele mesmo
homossexual que eu sempre ia chamar de melhor amigo se aproximava de mim com os
olhos brilhando. Senti meu rosto a ponto de explodir. Não de raiva, mas sim de
vergonha. A música acabou e as duas criaturas me soltaram. O cara do violão
ficou tocando uma melodia que eu não conhecia, mas que era perfeita. O garoto
que arfava aproximou-se ainda mais de mim. Aquelas três velhas palavras idiotas
saíram da boca rosadinha que pertencia a ele. “Eu te amo”. Meu coração parou
por uma fração de segundo. Não sei por que, mas eu não disse nada. A falta de
palavras aumentou quando todos gritaram e o livro caiu. Um círculo de pessoas
curiosas formou-se em volta do que todos pensavam que seria o mais novo casal
clichê daquela escola. Ele me soltou e abriu a boca. Fechou pra não entrar
muriçoca e saiu correndo atrás de mim quando eu saí correndo pra fora daquele
inferno. Eu cheguei à calçada e parei pra decidir pra onde ir. O trânsito nem
estava ruim e o sinal estava tão vermelho quanto o meu rosto. Eu atravessei a
rua toda esburacada e um braço segurou o meu. Eu girei.
“O que porra foi aquela?” ele gritou.
“Não grita que eu não sou as suas putas. E sou eu que te
pergunto: o que porra foi aquela?”
“Foi a única vez que eu canto aquela música brega.”
“Se é brega por que você cantou?”
“Você é burra? As fadinhas do reino dos unicórnios roubaram
o seu cérebro? Puta que pariu Hitler. Eu fiz aquilo porque você é a única
garota que merece uma humilhação que nem aquela. Porra, eu te quero tanto
quanto eu quero comida. Pra mim você é a garota que o Axl define em Sweet Child
O’ Mine, sou tão exagerado quanto o Cazuza, somos Eduardo e Mônica, por você eu
limparia os trilhos do metrô e até a bunda da Dilma... Você entendeu? Eu. Te.
Amo.”
“Ótimo! Sabe por quê? Porque eu também te amo. Ou eu acho.
Você é a única pessoa que me faz pensar sobre o que realmente é a vida. Ah!
Merda!”
Ele segurou meu rosto. Seus olhos brilhavam e dava pra ouvir
as batidas do seu coração. E, mais uma vez, as palavras não foram necessárias,
pois já tínhamos dito que era pra ser. E os motoristas buzinaram, as pessoas
curiosas gritaram e com certeza o porteiro acordou.
Uma semana depois...
“Sabe, eu acho que é apego” eu disse.
“Por que acha isso?”
“Não sei. É difícil amar alguém tão rápido. Normalmente as
pessoas sofrem”
“Normalmente. A gente atrasou cinco pessoas que iam pro
trabalho e um velhinho num fusca que ia pra um encontro. A gente não sofreu.
Essas seis pessoas sofreram por um curto momento pelo nosso não sofrer”
“Mesmo assim é apego. Ou posse. Ou uma amizade confusa”
“Foda-se. Eu te amo e você pode dizer o mesmo pra mim”
“Você é um idiota”
“E você é romântica demais”
“Você cantou uma música melosa e eu sou romântica demais?”
“Foi uma emergência. Ou amor”
E essa mesma conversa repetiu-se por vários dia naquela
semana.
PS:. Imagine o resto. Não tenho tanta imaginação ou pouca
preguiça."
Rafaela. 14 anos. Leonina. Pavio curto. Fã do AC/DC e dos Beatles. Escreve quando está com inspiração. Adora chocolate e sorvete. Tem medo de prédios muito altos, mas sem quis saber a sensação de se jogar de um.
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