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Uma pitada de surrealismo, outra de sátiras, um tiquinho de humor...

... e BUUUM! Um bom livro. Será mesmo que a estupidez é o melhor caminho num mundo onde a inteligência soberba é mal-vista? O livro de estréia de Martin Page conta a jornada de Antoine, que acredita que a ignorância é um dom. Então ele decide para de sofrer por causa de uma consciência que o impede de aceitar as injustiças do mundo, ele resolve virar estúpido. Sua primeira tentativa, a de virar alcoólatra, ele falha miseravelmente. Depois do trágico incidente, ele vai parar no hospital, onde conhece uma moça suicida (mal-sucedida) que lhe sugere um curso para suicidas. Isso mesmo. Ele desiste logo na primeira aula e tenta até o inimaginável: retirar uma parte de seu cérebro. Diante de vários fracassos, em sua última tentativa, seu médico receita o antídoto para a inteligência: o Felizac, um antidepressivo que eu não receitaria a ninguém. Ah, é só tomar essa bagaça e tá tudo certo? Não, depois que ele consegue um emprego na corretora de ações de um ex-amigo de Antoine, a história finalmente se desenrola.
Apesar de ser um livro bem fino, Como me tornei estúpido carrega tanta informação que depois que você lê, fica desnorteado. As sátiras e o humor ácido estão presentes em grande parte do livro, exceto no final que ficou ó: uma bosta. Martin Page tinha tudo para escrever um livro que arrebatasse todos, mas quando você pensa que o final vai ser surpreendente, Page lhe arranca toda a esperança. Entretanto, o livro não se torna de todo ruim por isso.
Ah, e preciso citar a ótima construção dos personagens. O meu preferido foi, sem dúvidas, o Aslee. Tá, mas quem é Aslee? É o amigo mais... excêntrico do Antoine. Ele brilha no escuro, só fala em versos e é gigantesco. Só isso.
Tá, e que nota eu daria? Quatro de cinco estrelas. Por quê? Porque o final me decepcionou de um modo que eu não posso expressar direito. Fora isso, Martin Page fez um dos melhores livros que eu já li.

Quem sabe se numa dessas Medianeras eu te encontro?

Numa cidade tão grande como Buenos Aires, como encontrar o amor? Gustavo Taretto brinca e encanta com um filme leve para ser assistido num fim de tarde tomando um chá. Moça não exagera! Martin é um complexado, fóbico e solitário que passa a maior parte de seus dias na frente de um computador. Mariana é uma arquiteta recém-formada que até agora não construiu nada e ganha a vida sendo vitrinista. Martin e Mariana são vizinhos que nunca se viram (até o meio do filme) nem conversaram pela internet (até quase o final).
Com: Javier Drolas e Pilar López de Ayala.
Ano: 2011
Direção: Gustavo Taretto

Quando eu vi algo sobre esse filme, foi somente uma imagem carregada de filosofia. Eu instantaneamente "corri" para procurar no Youtube e, quando finalmente achei, assisti num "só gole". CARA, QUE FILME BOM É ESSE? Medianeras mostra explicitamente o quanto somos dependentes da tecnologia e o quanto esse vício te afasta de pessoas que vivem ao teu lado, na tua fuça. Os personagens são bem construídos e repletos de defeitos e qualidades. São pessoas fictícias num universo real.
essa é a Mariana

esse é o Martin
A Mariana e o Martin fazem as mesmas coisas, veem os mesmos filmes e passam pelos mesmos lugares, mas nunca se conhecem de verdade. Cegos. Ela saiu de um relacionamento vazio de quatro anos não aproveitados. Ele foi abandonado pela namorada que lhe deixou apenas a cachorrinha que segundo ele é o elo perdido entre bicho de pelúcia e cachorro. Ela tem fobia a elevadores. Ele viveu isolado durante muito tempo. Em suma, eles são almas gêmeas cegas.
Mas sabe um ponto negativo nesse filme? Ele é desconhecido demais. Mesmo com toda informação contida no fantástico mundo da internet, ninguém se interessa em assistir. É triste? É sim, mas fazer o quê, né? Ah, e para constar também, esse filme foi baseado num curta metragem do mesmo diretor. Eu não achei ele legendado... Mas para quem quiser assitir, deixo o link no final do post.


o tal link que eu mencionei: https://www.youtube.com/watch?v=kDj9yoBJ0k8
se você quiser assistir depois que ler essa resenha: https://www.youtube.com/watch?v=8ja-vEbiY1c

Outro livro bom que só: A Escola do Bem e do Mal, de Soman Chainani

Assim como Soman Chainani, as crianças do povoado de Gavaldon são loucas por contos de fadas, até porque elas podem ser estrelas de outros contos de fadas. Tá, agora explica. A cada quatro anos, na décima primeira noite do décimo primeiro mês, alguém sequestra duas crianças. Os pais trancam e protegem seus filhos, apavorados com o possível sequestro, que acontece segundo uma antiga lenda: os jovens desaparecidos são levados para a Escola do Bem e do Mal, onde estudam para se tornar os heróis e os vilões das histórias. Num certo ano, Sophie - uma criatura chata, egoísta, perfeitinha fanática por pepinos - e sua "amiga" Agatha - uma gótica que mora num cemitério com a mãe - são as escolhidas do sequestrador. O problema é que elas são trocadas: Sophie vai para a Escola do Mal enquanto Agatha vai para a do Bem. Daí começa o furdúncio.
Pra falar a verdade, eu esperava algo mais infantil desse livro. Ao ler a sinopse eu me interessei por achar fútil uma releitura dos contos de fada onde as protagonistas são opostos gritantes e pensei: "Vamos ver no que dá, não é?" E cara, fiquei no chão quando terminei de ler essa maravilha. Tem um toque de Harry Potter e um cheiro de nostalgia que me faz lembrar dos tempos em que eu chorava largada com o final dos filmes da Disney (ai que vergonha). Uma das coisas que eu não gostei - além dos clichês - foi o pouco aproveitamento das quase 400 páginas. Dava pra ter colocado algo mais aí! Uma das coisas que eu gostei - além das lindas ilustrações - foi o mapa que tem logo no começo do livro ( que besteira, né?) Os personagens, apesar dos pesares, são bem construídos e cheios de defeitos e de qualidades; como elas sobrevivem em cada uma das escolas; e o final... fiquei assim com o final:

Vale lembra também que há um príncipe que também contribui para as tretas e  para os momentos engraçados; e, claro, A Escola do Bem e do Mal é o primeiro livro de uma trilogia homônima cujo segundo livro já foi lançado na gringa e não tem data de lançamento aqui.
Nesse momento o que me resta dizer é que: EU QUERO O FILME PRA ONTEM!

Confesso: fiquei desaparecida por muito tempo porque eufuisequestradapormafiososgatos eu precisava de um tempo pra mim e... Mentira! Eu fiquei um bom tempo sem o computador (o pobrezinho tem um certo fanatismo pelo técnico então já viu, né?) e também precisei me desligar um pouco pra escrever (eu tinha histórias abandonadas clamando por revisão)

Resenha: orgulho e Preconceito (2005)

Esses dias eu estava sem nada pra fazer. Como assim? Já tinha lavado a louça. Voltando ao assunto, eu fui procurar um filme para assistir. O que eu fiz? Nosso amigo Google ajudou! Fui procurar os filmes da minha listinha de coisas que virei a procurar num futuro próximo. Qual era o primeiro filme? Orgulho e Preconceito! Sim, eu já tinha ouvido falar nessa obra, mas não conseguia achar para assistir no Youtube. O que foi que eu fiz? Deixei a preguiça de lado, peguei o lençol mais grosso que achei e passei as duas melhores horas do meu sábado com o chat do Facebook desativado e os olhos no VimeoCara, cinco minutos depois lá estava eu novamente pesquisando no Google. O quê exatamente? TUDO sobre esse filme. Bem, sobre o quê é? As cinco irmãs Bennet - Elizabeth (Keira Knightley), Jane (Rosamund Pike), Lydia (Jena Malone), Mary (Talulah Riley) e Kitty (Carey Mulligan) - foram criadas por uma mãe (Brenda Blethyn) que tinha fixação em lhes encontrar maridos que garantissem seu futuro. Porém Elizabeth deseja ter uma vida mais ampla do que apenas se dedicar ao marido, sendo apoiada pelo pai (Donald Sutherland). Quando o sr. Bingley (Simon Woods), um solteiro rico, passa a morar em uma mansão vizinha, as irmãs logo ficam agitadas. Jane logo parece que conquistará o coração do novo vizinho, enquanto que Elizabeth conhece o bonito e esnobe sr. Darcy (Matthew Macfadyen). Os encontros entre Elizabeth e Darcy passam a ser cada vez mais constantes, apesar deles sempre discutirem.
O que eu achei? Espetacular! Algumas pessoas dizem que essa não foi a adaptação mais fiel ao livro homônimo, mas eu contradigo tal afirmação. O filme é sim fiel, mas não supera a série da BBC. O Darcy do MacFandyen (ô voz de barítono!) foi melhor que o do Colin Firth (me julguem) e a Keira estava anoréxica no filme. Alguns dizem que é um filme parado. Inocentes. Está tudo subtendido nos gestos e nas palavras de cada personagem. É engraçado, vazio e imperfeito. Paradoxo? Não. A blogueira bebeu? Talvez. Orgulho e Preconceito é de fato um filme que deve ser assistido diversas vezes. Não é difícil de entender, não tem um beijinho sequer (olhe as cenas extras ou vá nesse link) e não chega a ser clichê. Vale a pena? Muito.

Cenas preferidas:

"Eu a amo. Ardentemente"





Acir, hacer, adeus

E era agora que Acir perderia seu mais importante pilar. Ele realmente acreditava no amor em sua forma mais melosa possível: com flores, presentes baratos e doces que mal sobravam para o amanhã, eu te amos inesperados no meio da tarde, abraços que demonstrassem a posse de Acir sobre o grande e misterioso pilar, talvez o único de sua vida.
E agora era uma tarde quente. Não havia brisa que cessasse aquele calor que se misturou com o medo. Lá estava ela: deitada no tapete do apartamento dele, só com uma camiseta e calcinha. O sorriso expresso nos olhos fechados, guardando os mistérios não descobertos nesses três anos. Ela era tão feliz que até em seu descanso havia sorrisos. Mas ela era feliz ao lado dele? Pergunta perturbadora.
E as costas de Acir ainda estavam riscadas em forma de constelações não aceitas pela astronomia. Então ela dizia: “suas costas são céus, e suas pintinhas são estrelas”. Ele ouviria isso novamente? Por que tantas perguntas?
E os dois não desatavam o nó que era o abraço frio oposto ao calor do Nordeste. Não era a melhor posição do mundo, mas era compartilhada com a pessoa que fazia aquele maldito e poluído mundo melhor. Ou mais habitável.
E agora ela acordava e mandava que ele a soltasse. Ele obedecia prontamente. Ela recolocava a bermuda comprada por menos de dez reais e escrevia um certo bilhete difícil de entender. Acir não impediria a queda do seu templo.
E agora as únicas coisas deixadas por ela eram o moço tolo e iludido, e o bilhete. AH! O bilhete!
Acir
Hacer
Adeus
E Acir agora afirmava: a solidão é parte da paixão. Mas o problema é que só revela-se no final. Maldito final.

E agora? A brisa do amor sopraria novamente, ou levaria as expectativas de um Acir escasso de Pilar?


O que eu sou?

Sou a música que ninguém quer ouvir.
Sou o cabelo no arroz de alguém.
Sou o nó no teu cabelo.
Sou a gasolina mais cara do posto.
Sou a pedra que você tem pena de abandonar.
Sou o “roda presa” que te atrasa a viagem.
Sou o querosene que não pode ser derramado perto de ti.
Sou inflamável, e tu és o resultado da minha combustão.
Sou insolúvel comparado a tua essência.
Sou o fogo, tu a gasolina.
Sou óleo, e tu a água.
Sou e és.
Somos.
Só.
Elementos.
Distintos.
Da.
Química.
Da.

Vida.

Afinal, Capitu traiu ou não?

Eu li, reli, pensei, sonhei e amei. Machado de Assis nunca me fez tão feliz. A história de Capitu e Bentinho é espetacular. Lhe prende e lhe apaixona. E, ao final, o autor deixa uma indagação: Capitu traiu ou não? Olha, eu sei que você não me perguntou, mas eu acredito que não. Bentinho estava com uma saudade excessiva do amigo que morrera e por isso acreditou ver a imagem do amigo no rosto do filho. Não, não era ciúmes. Os homens não sentem ciúmes, sentem um medo idiota de perder a mulher que conquistou. E isso acontecia com Bentinho.Uma das frases mais marcantes do livro é a descrição dos belos olhos de Capitu. Os olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhos de ressaca. Enfim, vale a pena ler.

Há também algumas adaptações, sendo que a minha preferida é a minissérie do Plin Plin: Capitu. Dividida em 5 capítulos, a série tem um cenário bem incomum: as cenas foram gravadas em lugares públicos do Brasil, mas os trajes condizem com a época. E a trilha? O que dizer da perfeição? Espie: tem um pouco do rock antigo, como Black Sabbath e Jimi Hendrix. Tem também músicas calmas como Elephant Gun do Beirut. E claro que não podia faltar músicas brasileiras!

Cena da minissérie

Tema de Bentinho (aparentemente corno) e Capitu

"Por toda a minha vida eu vou te amar"

"Catarina e Ricardo se encontraram numa festa. Era uma noite de janeiro de 1930 e a moça completava os tão esperados 15 anos. Ele a tirou para dançar e aconteceu. Eles começaram a sentir algo novo, diferente. Quando os olhos brilharam mais que as estrelas, a melodia que saía do velho violão empoeirado encerrou-se e eles se despediram. Passaram-se anos e eles se casaram cada um com um “trapo”. Tiveram filhos – alguns pareciam ser gays e então chegou a velhice.
Ricardo Ventura faleceu em 14 de fevereiro de 1999. Ele sempre afirmou que morreria de amor. Besteira. Morreu de velhice mesmo.

Quinze anos depois, Catarina foi encontrada morta. Em cima da cômoda, tinha um pequeno bilhete. “Demorei quinze anos para encontrar-te pela primeira vez. Agora esperei mais quinze para que fiquemos juntos pela eternidade”. E nesse momento aquela canção do Tom Jobim faz o maior sentido."

 Aquela canção do Tom Jobim:

Se eu pedir perdão, você vai fugir a pé? Não, de trem

Eu estava acabado. A cada vez eu me olhava no espelho, via alguém desconhecido. As marcas roxas eram testemunhas das noites de sono perdido. O cabelo desgrenhado estava sujo. O coração doído era vítima dela. Maldita hora em que eu olhei para ela. Maldita hora em que eu a pedi em namoro. Maldita hora em que aquela fofoca se espalhou. Maldita vida inútil. E pensar que um dia eu ri sem motivo. E pensar que um dia eu fui feliz.
Eu assistia desenho deitado no sofá sujo e coberto por migalhas de biscoito. Era um desenho escroto que nem a minha vida. Se não bastasse, a campainha tocou bem no ápice da luta entre o herói e o vilão. Eu perguntei quem era. Uma voz doce e apreensiva soou por trás da porta. Era ela. A moça que arruinou a minha vida. Num ato inexplicável, eu corri para abrir a porta. Eu queria vê-la uma última vez. Ela me olhou nos olhos.
- Você está horrível – Marina disse.
- Foi por sua causa. Veio partir outros órgãos meus?
- Não. Vim saber se é verdade que você vai embora.
- É verdade sim. Vou amanhã de manhã.
- Não vai. Por favor.
- Por que eu não iria? A única coisa que me prendia aqui era você. Aí a senhorita me abandonou.
- Por favor, não vai. Eu descobri que aquilo era mentira.
- Descobriu tarde. Vou amanhã às oito. Adeus.
- Não!
- Sim! Você acabou com o resto de mim e quer que eu fique? O que vai fazer? Esfregar a sua felicidade na minha cara? Marina, vá embora.
- Nunca! Você sabe o quanto eu sofri ao pensar no que você estria passando?
- Então, por que não veio antes? Olha, vá para casa. Acabou. Eu te amo ainda, mas não dá certo. Eu vou seguir o meu caminho. Ele pode ter brasas, maremotos, tubarões, tudo o que for possível, mas eu tenho que segui-lo, faz o mesmo.
- Fernando, não – ela disse e lágrimas lavaram a face dela – Poxa, eu te amo. Fica. É sério – eu baixei a cabeça e ela segurou erguendo-a – olha para mim. Deixa disso.
- Não posso. Adeus Marina – eu disse e fechei a porta. As lágrimas caíram de novo e eu desabei. Uma pressão queria espremer meu coração até que eu criasse coragem para ir atrás dela. A missão falhou. Encolhi meu corpo no chão frio e comecei a lembrar dos velhos momentos. Eu a perdi. Eu sou um merda. Eu ia embora no trem das oito. Eu queria morrer.
* * *
No dia seguinte, eu acordei cedo e coloquei uma música triste o bastante para me fazer chorar. Peguei minha mochila e fui para a estação. Na minha mão estava um velho livro de poesia. No coração estava uma dor incontrolável. Na cabeça estavam os pensamentos mais confusos do ser humano.
Peguei um táxi e fui para a estação férrea. O trajeto era curto e entediante. Quando cheguei, a estação estava cheia, com cheiro de peido e de cigarro. Eram sete e quarenta e cinco. Esperei um bom tempo até que alguém anunciou a saída do trem para o Rio de Janeiro. Joguei a mochila nas costas e fui.
Em meio à multidão, uma voz esganiçada chamou por mim. Virei e vi a Marina correndo que nem louca com os cachos ao vento lento. Eu esperei até que ela gritou para que eu não fosse. Abraçou-me e disse aquelas palavras.
- Que faz aqui? – eu perguntei.
- Vim impedir uma besteira. Eu estou lhe pedindo pela última vez. Fica. Não te mereço, mas eu te amo poxa. Se você ficar eu faço aquele bolo, pipoca e o mais importante: eu te faço feliz. Sou a pior pessoa, mas fica. Por favor – ela disse e mais uma vez chorou.
- Não posso.
- Sim, você pode.
- Você encontrar alguém. Vai me esquecer. Vai esquecer tudo – eu disse e então ela me beijou. Soltei o livro e a segurei na cintura. Soltamo-nos e ela suplicou pela última vez – Eu fico, mas só com uma condição.
- Qual?
- Seja a Sra. Ventura.
Os dentes brancos se mostraram e ela disse um simples e glorioso “sim”. Segurei a cintura dela e comecei a girá-la. O trem se foi e eu a toquei com os lábios.
- Só falta uma coisa – ela disse assim que nos soltamos.
- O quê?
- Aquelas palavras. Todo final de história romântica tem aquelas palavras.
- “The End”?
- Não seu bobo.

Pensei mais um pouco e finalmente disse um “Eu te amo”. Não existem palavras mais bonitas que essas. Definitivamente não.

Maldito Despertador

"Ela tinha a mesma rotina chata de qualquer pessoa. Isso até o garoto se mudar para a casa em frente. Ah! Sempre a casa em frente. Por que não a que ficava a dois quarteirões de distância? Pra que ela iria querer mais alguém para atazaná-la? Por que o violino da música que vivia sendo transmitida pelo fone ficou preso no coração? Deus! Por quê?
Aquele dia chato passou rápido demais em comparação aos outros. As professoras estavam menos escrotas, a comida parecia menos nojenta e as pessoas não eram o alvo daquela típica frieza diária.
Na volta para casa os mendigos pareciam amigáveis e os pássaros não pareciam ameaçadores. Ela pensou se o Sol fosse explodir e o mundo acabar. Não. Era só a velha magia do novo vizinho.
E, durante a tarde, o vizinho veio lhe trazer a torta que parecia envenenada. Deu pra ver os olhos riscados dele. Uma blusa manchada de água sanitária e a bermuda que parecia ter sido comprada num brechó faziam dele a criatura mais incomum possível. Mesmo assim ele estava apresentável. A torta era de abacaxi e a educação impecável.
O aparelho de som tocava uma música velha o bastante para fazê-la parecer antiquada ou desatualizada. Errado. Ele não abominou a música e batucou o ritmo usando os pés. Os cadernos espalhados pelo sofá agora estavam em cima da mesa, dividindo lugar com os pratos do almoço comprado pronto. Durante vários minutos, o silêncio foi o convidado de honra. Os minutos passaram e ele perguntou sobre ela. Viu o velho livro e lhe contou o final. Ela ficou meio brava. Por pouco tempo até.
Durante mais ou menos uma hora, eles conversaram sobre o que ela nunca pensou contar. É, parece que ela tinha um amigo. Ou vizinho do ombro do desabafo. Enfim, o TIC TAC do relógio ficou mais alto e ele anunciou o fim da entediante, mas confortante conversa.
Ela foi educada e o levou até a porta. Ele acenou antes de atravessar a rua esburacada. Ela sorriu em resposta para não mostrar o bom e velho dedo do meio. Sim, o dedo do meio. Ele estava querendo algo. Dinheiro, doces, livros, vinis raros... Ele estava querendo algo. Essa era a única certeza dela.
Naquele outro dia, ela levantou ao toque infernal do despertador possuído, vestiu um casaco que cobrisse a bunda e foi para a escola. Parecia monótono até aí. Depois daí, o velho vizinho sem nome apareceu para acompanhá-la. Aqueles energúmenos pensariam besteira e o sarcófago que a protegia do mundo estaria ruindo. O que ela poderia fazer? Ele realmente queria dinheiro? Se a reposta fosse sim, ele estaria ferrado. Ela não tinha o que chamar de dinheiro. O motivo? Livros. Drogas do bem. Vício que não a largava. Tentação que veio do demônio. Enfim, ela deveria aceitar. A garota durona estava ao lado de alguém do sexo oposto. Isso era raro assim como a explosão do Sol num dia de neve.

E o grito soou pelo quarto bem antes do despertador. O sonho a tinha assustado mais do que o palhaço que tentou roubá-la um mês atrás. Ela queria saber o que acontecia depois. Tentou. A missão falhou lindamente. O que restou foi levantar. Café solúvel, biscoito (ou será bolacha?) e um jornal velho. O aparelho de som agora transmitia a música de uma cantora que tinha a voz rouca, mas única. Às vezes era disso que ela precisava. De nada. Só sossego. Ou de um ótimo dedo do meio. Às vezes os dois faziam uma bela dupla."

Conceito de higiene

"Ele me olhou com algo que pareceu nojo.
– Por que você não se depila?
– Porque não.
– Mas é falta de higiene.
– Ainda acho que a melhor e mais eficiente forma de higiene é o banho.
Ele se calou"

Sem título #3 (?)

Ela vivia sonhando. Não com o príncipe encantado que parecia nunca vir. Ela sonhava que caía num precipício que se chamava amor. O sonho começava numa sala da aula de matemática e terminava na felicidade dela. Ô menina de má sorte! No sonho o precipício era divido em duas partes. A primeira, cheia de flores e a segunda, escura e grotesca. Por isso ela deu esse nome ao precipício. O grande amor que ela viveu, antes era flores e tudo mais. Depois se tornou o mais alto dos prédios onde aqueles suicidas se jogavam.
No final do precipício, tinha um príncipe. Na verdade não era um príncipe. Era só um gordinho que sempre gostou dela. Por que ela sonhava com ele? Ninguém sabe. Ela só sabia que vinha uma voz narrando tudo o que ela sentia. Que nem naquele filme. Aí chegava um unicórnio e levava ela prum castelo de açúcar e rodeado daquelas tiras doces que vende no mercado da esquina.
Do castelo saía um mago que a transformava no que ela sempre quis ser: a Rita Lee. Versão jovem é claro. Daí vinha um tal de Jim Morrison e começava a cantar. Ô sonho sem noção! Tinha também um relógio que a cada toque era um grito de mulher que tava dando à luz. Quatro horas da manhã de domingo. Do mesmo castelo saía também certa modelo que perdeu o corpo e a noção de tudo. Essa modelo começava a cantar Clarice Falcão.
Então eles a levavam para tal cinema cujo dono era mudo. Passou um filme curto, mas até legal. No quase final do sonho, aparecia um cara bem bonito. Ele diz que ela não é feliz no final. Ela não entende e ele se aproxima cada vez mais. No momento do bom e não tão velho beijo, o filme acaba e a última coisa que aparece na tela do cinema é aquele tal de “The End” que tanto me irrita.
Daí começa uma música dos Mamonas Assassinas que dizia alguma coisa sobre a porra da hipotenusa. O cara começava a rir, o gordo começava a rir, o unicórnio relinchava, e o mago dizia umas palavras que ela não lembrava bem. O relógio anunciava as quatro e quarenta e cinco da manhã de domingo com o grito que ela entoou quando acordou.

E a última visão dela era um cartaz que dizia que a felicidade não é duradoura o bastante para o Sol de domingo. Ela tentava entender o que aquilo queria dizer. Ô menina burra! Queria dizer sei lá o quê que o sonho não é meu. Ou é?

O fruto de um desafio

"Eu estava na biblioteca. Um alvoroço começou e até os mais desinteressados em livros vieram para dentro daquele antro de conhecimento. Uma melodia que eu conhecia começou a ser tocada por um garoto de feições semelhantes às de um travesti que segurava um violão meio velho. Uns outros garotos batiam palmas e um certo homossexual esfomeado saiu cantando meio afinado. Eu olhei em volta para procurar a garota que estava vermelha diante da situação. Como não era de se esperar, a garota que tinha que corar era eu. Eu peguei uma tira de papel qualquer e coloquei para marcar a página do livro surrado. Eu tentei sair daquele inferno pra ter a certeza de que aquilo era somente uma brincadeira de gente sem ter o que fazer. É óbvio que não me deixaram sair. Duas criaturas enormes me seguraram enquanto aquele mesmo homossexual que eu sempre ia chamar de melhor amigo se aproximava de mim com os olhos brilhando. Senti meu rosto a ponto de explodir. Não de raiva, mas sim de vergonha. A música acabou e as duas criaturas me soltaram. O cara do violão ficou tocando uma melodia que eu não conhecia, mas que era perfeita. O garoto que arfava aproximou-se ainda mais de mim. Aquelas três velhas palavras idiotas saíram da boca rosadinha que pertencia a ele. “Eu te amo”. Meu coração parou por uma fração de segundo. Não sei por que, mas eu não disse nada. A falta de palavras aumentou quando todos gritaram e o livro caiu. Um círculo de pessoas curiosas formou-se em volta do que todos pensavam que seria o mais novo casal clichê daquela escola. Ele me soltou e abriu a boca. Fechou pra não entrar muriçoca e saiu correndo atrás de mim quando eu saí correndo pra fora daquele inferno. Eu cheguei à calçada e parei pra decidir pra onde ir. O trânsito nem estava ruim e o sinal estava tão vermelho quanto o meu rosto. Eu atravessei a rua toda esburacada e um braço segurou o meu. Eu girei.
“O que porra foi aquela?” ele gritou.
“Não grita que eu não sou as suas putas. E sou eu que te pergunto: o que porra foi aquela?”
“Foi a única vez que eu canto aquela música brega.”
“Se é brega por que você cantou?”
“Você é burra? As fadinhas do reino dos unicórnios roubaram o seu cérebro? Puta que pariu Hitler. Eu fiz aquilo porque você é a única garota que merece uma humilhação que nem aquela. Porra, eu te quero tanto quanto eu quero comida. Pra mim você é a garota que o Axl define em Sweet Child O’ Mine, sou tão exagerado quanto o Cazuza, somos Eduardo e Mônica, por você eu limparia os trilhos do metrô e até a bunda da Dilma... Você entendeu? Eu. Te. Amo.”
“Ótimo! Sabe por quê? Porque eu também te amo. Ou eu acho. Você é a única pessoa que me faz pensar sobre o que realmente é a vida. Ah! Merda!”
Ele segurou meu rosto. Seus olhos brilhavam e dava pra ouvir as batidas do seu coração. E, mais uma vez, as palavras não foram necessárias, pois já tínhamos dito que era pra ser. E os motoristas buzinaram, as pessoas curiosas gritaram e com certeza o porteiro acordou.

Uma semana depois...
“Sabe, eu acho que é apego” eu disse.
“Por que acha isso?”
“Não sei. É difícil amar alguém tão rápido. Normalmente as pessoas sofrem”
“Normalmente. A gente atrasou cinco pessoas que iam pro trabalho e um velhinho num fusca que ia pra um encontro. A gente não sofreu. Essas seis pessoas sofreram por um curto momento pelo nosso não sofrer”
“Mesmo assim é apego. Ou posse. Ou uma amizade confusa”
“Foda-se. Eu te amo e você pode dizer o mesmo pra mim”
“Você é um idiota”
“E você é romântica demais”
“Você cantou uma música melosa e eu sou romântica demais?”
“Foi uma emergência. Ou amor”
E essa mesma conversa repetiu-se por vários dia naquela semana.

PS:. Imagine o resto. Não tenho tanta imaginação ou pouca preguiça."

Quatro e quarenta e cinco

"Ela vivia sorrindo para o espelho. Eram sorrisos falsos, nulos. Só serviam pra fotos e como resposta para a mesma pergunta que os amigos faziam.
Ela vivia escrevendo para passar o tempo. Eram palavras sinceras que ninguém nunca quis prestar atenção.
Ela vivia sem viver. Comendo sem nem ao menos sentir o gosto. Escutava pra não explodir e às vezes explodia pra não ouvir. Simplesmente existia."


"Ela queria saber amar. Ele não imaginava o que era o amor. Ela o amava. Ele não sabia sentir. Ela sofria em silêncio. Ele vivia rindo sem nem ao menos saber o que eram as lágrimas. Ela recebeu um desafio. Ele que a desafiou. Ela não cumpriu o desafio. Ele se apaixonou. Ela tentou viver aquilo. Ele descobrir o amar. Ela ficou com dúvidas. Ele não conseguiu acreditar que ela não acreditava no que ele sentia. Ela pediu desculpa. Ele (ninguém sabia o porque) terminou a relação, mas não o amor. Ela voltou a sofrer. Ele foi buscar a blusa da velha bandas boa que só. Ela tinha feito camisola. Ele ficou com raiva e ao mesmo tempo feliz (com raiva porque essa era a blusa preferida, feliz porque ela tinha se apegado a alguma coisa dele). Ela ficou com vontade de dizer o que sempre engasgava, mas fingiu felicidade pra não enrolar a história. Ele ficou arrependido por vê-la tão feliz, e por se ver tão triste. Ela ficou imaginando o que seria daqui pra frente. Ele só tinha a velha certeza que não haveria mais futuro pra eles."

"E quando me perguntarem meu maior medo, vou dizer que ele está em ti
Mas quando me perguntarem o que eu mais estimo, vou escrever alguma coisa baseada em ti
Então quando que perguntarem o meu erroamor maior, vou levá-los até a tua moradia e apontar os velhos olhos misteriosos que prendem até o melhor bandido"

Explicação para o título da postagem: "Foi a hora em que eu escutei a mim mesma falando sobre o que eu nunca pensei"


Galáxia no potinho

Eu tava fuçando no Facebook esses dias, quando eu me deparo com uma "galáxia engarrafada". Eu fiquei tão maravilhada que procurei o passo a passo e fiz. Ficou bugada que só, mas dá pra olhar sem ficar cego. Quem quer aprender?

O que você vai precisar:
- Muito algodão
- Um pote/garrafa transparente cheio de água
- Glitter de várias cores
- Corante, suco em pó, anilina, produto de limpeza... Enfim, alguma coisa colorida e que dissolva em água
- Tampa ou rolha
- Paciência
- Sorte

Como fazer:
Coloque o corante/suco em pó/anilina/produto de limpeza na água e misture até ficar da cor desejada. Afogue o algodão na água. Jogue o glitter. Afogue mais algodão. Vá fazendo essas camadas (algodão/glitter/algodão/glitter) até encher. Quando isso acontecer, chacoalhe bem. Tampe e seja feliz!

De duas cores:
Coloque o algodão, coloque a água até afogar o algodão, pingue uma gota do corante (ou o que você for usar), depois outro algodão, e assim até o topo do pote/garrafa. Chacoalhe bem.

Expectativas/galáxias bem sucedidas:





Minha realidade:

Sim, não deu certo. Mas se você tentar e tentar vai conseguir!

O primeiro amor

Esses dias eu estava sem nada pra fazer. Então me veio a brilhante idéia de comprar um filme. Fazia um bom tempo que eu vinha querendo assistir esse. O problema é que eu me apaixonei por ele.

Sobre o que é: O filme conta a história de dois vizinhos, Julianna Baker e Bryce Loski. Na primeira vez que Juli viu Bryce, ela caiu de amores. Ele, em contrapartida, fugiu dela o máximo que pôde. À medida que os anos passam, acompanhamos a mudança nas perspectivas de ambos sobre si mesmos, além da visão que passam a ter um do outro e de suas famílias.
Minha opinião: É perfeito. Sou exagerada sim, meu bem. O diretor foi muito fiel ao livro, as atuações foram magníficas, e eu chorei a beça. É um filme que qualquer pessoa não se incomoda em assistir, apesar de ser um “filme teen”. Você pode achar a história idiota, mas é muito mais densa do que você imagina.

*Eu estou lendo o livro que inspirou o filme. Estou adorando e já já eu posto sobre ele. A pequena desvantagem é que só tem em INGLÊS. Enfim, eu vou ler e reler que só. Digo o mesmo sobre o filme. Vou ver e rever.

Trailer:

I don't want to leave her now

Eu nem estava arrumado o bastante quando ela chegou. O vestido branco fazia com ela fosse a única criatura que realmente merecesse ser clonada para um futuro distante. Seus olhos castanhos iluminaram-se ao perceberem que o apartamento estava limpo e sem pizzas mofadas. Senti uma leve pressão no estômago ao pensar que ela poderia descobrir o que tinha feito. A pressão foi direto para o coração no momento em que ela me abraçou.
“Você que cozinhou?” Ela indagou referindo-se ao macarrão.
“Eu deveria ter pedido pra minha mãe cozinhar. Sou um fracasso.”
“Eu amo fracassos.” Dentes brancos e totalmente certos se mostraram.
“Espera um minuto. Eu tô um cocô.” Eu disse e saí em direção ao quarto.
Uns dez minutos depois, eu fui até a sala. A garota dos olhos de lama estava no sofá. Ela fungava e parecia estar gripada.
“O que houve?” Eu indaguei.
“Só alguns trocados furados. Eles são frutos de uma aposta tosca que foi feita por aquele que eu pensava ser o grande amor da minha vida. Qual é o meu valor? Cento e vinte e cinco? Mais? Acho que um chute nos testículos vale uma ida ao hospital.” Eu disse com o rosto pálido de raiva.
“Eu posso muito bem explicar! Eu estava precisando de dinheiro...”
“Você precisa do inferno! Talvez você devesse ir pra lá! Você seria uma ótima companhia pro capiroto.”
“Como você soube?”
“Aquele prostituto com cara de travesti veio aqui te lembrar do que você tinha que fazer e me contou.”
Eu fiquei calado. Se eu dissesse algo eu teria que ir ao banheiro. Eu só diria merda.
“Você me enoja!” Ela disse enquanto jogava o que via pela frente contra a parede. “AH! Como eu te odeio! Você merece morrer com uma guilhotina te cortando ao meio!”
Eu ouvia tudo calado. Palavras não adiantariam. Nada adiantaria. Era oficial: eu a perdi por não valorizar a garota especial que eu tinha perto de mim. Maldito prostituto com cara de travesti.
Ela saiu sem gritar um último xingamento. Bateu a porta tão forte que eu pensei que fosse derrubá-la.
O que me restou foi a velha cadeira empoeirada. Eu olhei o apartamento que ainda tinha o cheiro dela. Acredite, eu nunca senti algo assim. O aroma era doce e o vinho barato ainda estava na taça dela. A velha música dos Beatles ainda tocava no volume quase mínimo e no modo de repetição. O apartamento estava de cabeça para baixo. Literalmente. Os pratos de porcelana que antes serviam o espaguete, agora estavam espalhados pela sala. A velha televisão não teria conserto. Os copos vazios que estavam em cima de uma prateleira qualquer, nunca mais serviram água pra visita chata. A única lembrança da fúria era o velho porta-retrato. O lava jato comunitário, a mangueira espalhando água por todo lugar, meus olhos encontrando os dela e dois sorrisos bobos pra completar. Segurei-o e comecei a chorar por lembrar-se dos momentos juntos. O arrependimento não saía do meu coração. Eu ainda não tinha percebido o quanto ela era perfeita pra mim. Que merda.
“TOC, TOC, TOC”. Quem poderia ser? Deve ser o entregador. Não, não deve ser. Eu não pedi nada. Talvez fosse um mendigo psicopata com um garfo.
“Quem é?”
“Sou eu.”
Eu corri pra abrir a porta. Não sei por que eu corri. Talvez ela tivesse voltado pra me chutar na virilha. Talvez não.
“É... eu esqueci minha bolsa.” Ela olhou para o que eu segurava. “O que é isso?”
“Uma foto velha.”
“Com certeza de você com uma velha namorada.”
“É. Com a mais especial.” Eu a mostrei a foto.
“Se pensa que eu vou voltar pra você...”
“... eu estou muito enganado. É eu sei disso. Sua bolsa está no sofá.”
Ela parou pra ouvir a música.
“Qual é a música?”
“Something dos Beatles.”
“Aquela que você dizia que queria cantar pra mim.” Ela sorriu.
“Desculpe-me. É eu fui um idiota, mas eu te amo. Só vim perceber isso agora.”
“Que pena.”
Ela pegou a bolsa e foi na direção da porta. Eu segurei forte seu braço a fazendoela virar-se para mim.
“O que foi agora?”
Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me
…”
“Mas o quê?”
“…I don't want to leave her now
You know I believe and how
…”
A minha voz era desafinada, mas ela parecia gostar.
“… Somewhere, in her smile, she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me...”
“A música. Era essa a música que você queria cantar pra mim.”
Eu assenti e a levei para o meio da sala.
“… I don't want to leave her now
You know I believe and how ...”
Ela sorria. O sorriso mais lindo que eu já tinha visto.
“… You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know...”
Eu mudei a música. Agora tocava uma música lenta do Elvis. Começamos a dançar.
“Eu tive vontade de me jogar pela janela quando você saiu. Era o único jeito de não sofrer sabendo que você nunca me amaria de novo.”
“Eu não deixei de te amar. Nunca.” Ela sussurrou no meu ouvido.
Eu olhei seus olhos castanhos. Profundos, desconhecidos, que me fazem pensar sobre o impensável e que me fazem expelir água máscula. Segurei seu rosto e toquei seu lábios. Ela afastou-se.
“Você tem gosto de vinho barato”
“Foi você que escolheu o vinho”
“Puta merda! Como eu tenho mau gosto”
Eu sorri e continuamos dançando. Eu pensei em dizer alguma coisa, mas logo desisti. O que importa é que ela me ama e eu a correspondo. Às vezes é só isso que basta. O amor sendo o mais surreal possível.


E, com esses pensamentos, eu senti meus olhos pesarem. Eles se fecharam e eu vi uma espécie de filme passando na frente dos meus olhos. Meu pai me ensinando a tocar violão e a minha primeira namorada me dando um fora. Um brilho forte me cegou por um curto momento. Minhas pernas bambearam e eu tentei abrir meus olhos. O coração bateu forte por alguns instantes e foi parando gradativamente até que eu caí. Um leve sorriso formou-se em meu rosto e eu senti tapinhas na minha bochecha esquerda (ou será direita?). Ouvi uns murmúrios implorando algo que eu não decifrei de imediato. Aos poucos eu fui apagando a minha vida e me direcionando para uma eternidade triste e solitária. O sorriso em meu rosto simbolizava a alegria de ter recebido um último beijo da minha amada. Morri sorrindo, pois eu sabia o quanto eu tinha sido feliz. Mas não tive a oportunidade de dizer aquelas velhas palavras especiais: “Eu te amo”.